Crônicas e poemas: mais livros de autores gaúchos que merecem ser lidos
- Maristela Scheuer Deves
- 10 de jul. de 2020
- 4 min de leitura

Eu estava devendo para vocês, há semanas, as dicas de livros de crônicas e poemas de autores gaúchos – já havia falado de romances e livros de contos, e faltava esses dois outros gêneros. Pois então, sem mais delongas, vamos a eles.
A primeira sugestão de leitura é o premiadíssimo Caixa de Guardar Vontades, de Emir Rossoni (Telecazu, 96 páginas). O livro, lançado em 2018, traz três dezenas e meia de crônicas e divide-se em duas partes. Na primeira, o destaque é para a sensibilidade e até para um certo lirismo de textos como “Era um caixa de madeira”, sobre o avô e sua caixa de pesca que tanto encantavam o autor na infância, ou “Novenas”, que começa assim: “Eu procurava a felicidade nas noites de verão, principalmente nas noites que antecediam o natal. Mas não era por causa do Papai Noel. Eu procurava a felicidade na forma de vaga-lumes”. Na segunda parte, os textos trazem um pouco mais de humor e pitadas de fina ironia – sem, necessariamente, deixar a sensibilidade de lado. Ah: no exemplar que eu tenho, consta apenas o selinho de vencedor do Prêmio Açorianos na categoria crônicas, mas as edições mais recentes trazem ainda outros quatro: de finalista do Prêmio Ages, de vencedor do Prêmio Guarulhos 2019 na categoria Livro do Ano, de 2º lugar no mesmo prêmio na categoria Escritor do Ano e de finalista do Prêmio Minuano.
Ainda em crônicas, a outra dica é Fagulhas, de Marilia Frosi Galvão (Quatrilho, 100 páginas). Na primeira de suas quatro partes, “Lampejos da memória”, a obra transita por memórias individuais e coletivas, de bibelôs antigos a histórias marcantes da infância. Na segunda, “Flanando por aí’, a autora percorre paisagens, da Paris vista pela primeira vez a retalhos e conversas entreouvidas em meio à efervescência literária de Paraty. Livros, escritores e quase-contos estão nos textos da terceira parte, “Revelações, reflexões e ficções”, enquanto a quarta e última parte do livro, “Receitas com amor e humor”, une culinária e lembranças. Para dar um gostinho da escrita de Marília, vai aqui um trecho de “Eu em advérbios”: “Já subi em árvores. Já brinquei de esconde-esconde. Já pulei corda. Já joguei bolinha de gude com os guris. Já fui atropelada por bicicletas duas vezes. Já sou avó.”
Indo para a poesia, Estações d’Alma, de Amália Marie Gerda Bornheim (Quatrilho, 240 páginas), é uma coletânea de delicados haicais – não à toa definidos pelo também escritor Marcos Fernando Kirst, no prefácio da obra, como “origamis dobrados em verso”. O encanto da obra, que emula as pequenas belezas do cotidiano por meio de um olhar apurado, é potencializado com ilustrações da artista plástica Beatriz Balen Susin. Uma amostra:
“No quintal da infância
araçás maduros caem
como gotas de ouro.”
De uma outra vertente são os versos de Quando Nasci Gertrudes, de Jaque Pivotto (Quatrilho, 128 páginas). O feminino, com suas dores, prazeres e discriminações sentidas na pele, é o que dá o tom dos mais de 40 poemas do livro, pelos quais transitam Gertrudes, Marias, Marinas, Clara, Solanges, Fridas e Ariadnes, entre outras tantas personagens, com suas paixões, medos, solidão, sempre tecidas com um olhar apurado e irreverente. A arte, a cultura popular e até a crítica ao autoritarismo também se fazem presentes, com a mesma poeticidade. O livro é aberto com o poema “Gertrudes e eu”, e encerrado com seu espelho, este “eu e Gertrudes:
“quando nasci Gertrudes, mirei um papel escrito sem depositar fé
ali, logo ali, o branco se faz muito
ali, logo ali, as memórias enterram-se em ideias
ali, logo ali, sentada em chão batido, escrevo impressões para viver
ali, logo ali, há um mundo branco igual livro escrito que Gertrudes lê
ali, logo ali, Gertrudes e eu imprimimos poesia com as mãos
ali... bem ali: somos somente eu e Gertrudes, Gertrudes e eu.”
Também vale conferir os Versos Inominados de Viviane Luchese (Quatrilho, 96 páginas). Por vezes sombrios, noutras vezes doloridos, mas sempre contundentes, os poemas falam de interioridade, relacionamentos, sentimento, mostrando força poética e domínio da linguagem. Confira um fragmento:
“Perder-te-ei com o tempo,
(e enquanto me reencontro0
Te apequenarás com este tempo
Ficando tão pequeno a tal ponto
Que nenhum microssegundo importará de todo o nosso tempo
Se não apenas o desperdício do tempo.”
Para finalizar, recomendo ainda a leitura de Amor Fati, de Júlio César Kunz (Quatrilho, 96 páginas). O livro divide-se em quatro partes: “Os nomes (re/des)velados”, com poemas que versam sobre personagens (reais ou imaginados); “Os caminhos sem volta”, no qual tematiza as perdas e a morte; “As muitas”, em que aborda de sexo a amores; e “Do eterno retorno”, na qual emula a filosofia nietzcheana de que é preciso viver cada experiência como se ela fosse se repetir eternamente. Entre experimentações e filosofias, e autor constrói um painel interessante e instigante. Aqui, um trecho do poema “Toutes les nuits (les poèmes)”:
“Fujo então
Passado presente futuro
Finjo fugir
Volto ao início
Com noite de
Nada
E chego ao final
Cíclico de todas as noites
Cotidiano de todos os mundos”
Por hoje, eram essas as dicas. Boas leituras, e não deixe de conferir também a programação literária da semana - hoje já é sexta, mas ainda tem muita coisa bacana rolando.
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