“Terra Gaúcha”, o livro infantil de Simões Lopes Neto
- Maristela Scheuer Deves
- 10 de ago. de 2020
- 2 min de leitura

Você certamente conhece, ou pelo menos já ouviu falar, nos Contos Gauchescos e nas Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto. Mas você sabia que esse autor, tão identificado com a cultura do Rio Grande do Sul, também escreveu uma obra para crianças?
Pois é, pouca gente sabe. Terra Gaúcha – Histórias da Infância teria sido escrito entre 1904 e 1908, mas permaneceu inédito por mais de 100 anos, até ganhar edição em 2013 pela editora caxiense Belas-Letras, com apoio do Ministério da Cultura. A edição do material ficou a cargo de Luís Augusto Fischer.
Em capa dura e com 275 páginas, a obra traz ainda ensaios sobre o autor e a obra, além de uma amostra em fac-símile de algumas páginas do original, na letra do escritor. O mais interessante, porém, é mesmo a narrativa, em primeira pessoa e dividida em duas partes: na primeira, após falar do colégio que será inaugurado em breve na sua cidadezinha, o narrador mirim parte para passar as férias numa estância; na segunda, ele começa seus estudos na escola, com colegas de todos os Estados do Brasil – um truque do autor para falar um pouco de cada cantinho do país, a despeito do título do livro.
Apesar de repleto de informações (como a origem da palavra “gaúcho” e temas abordados na escola), que dão por vezes um leve tom didático, Terra Gaúcha tem uma escrita leve, fluída, que cativa o leitor. O narrador-personagem convence como criança, uma criança esperta, é verdade, mas que por vezes mostra um olhar ao mesmo tempo ingênuo e questionador perante o mundo. “Por que é que todos os homens não hão de viver assim, neste sossego, na fartura, e teimam em viver nas cidades, onde todos se queixam sempre?”, pergunta-se ele, durante as férias na fazenda da família.
A lida campeira, com seu vocabulário característico, e as histórias do nosso folclore, como Negrinho do Pastoreio e Boi-Tatá – contadas por siá Mariana, que para Fischer apresenta similaridades com a tia Nastácia, do Sítio do Picapau Amarelo –, também permeiam a narrativa, dando-lhe ainda mais sabor. A escrita solta, a centralidade da personagem criança (algo não muito comum na época) e uma certa preocupação em contar uma boa história que também traga informações igualmente lembram um pouco a obra de Monteiro Lobato. É curioso, pois um autor não conhecia a obra infantil do outro: a série lobatiana é dos anos 1920, posterior à escrita de Terra Gaúcha, que, por sua vez, só seria viria a público agora, no século XXI...
Aliás, eu disse acima que é uma obra voltada ao público infantil. É verdade. Porém, vale a leitura também para os adultos, que, aposto, vão gostar. Até porque a edição é "de gente grande", com muita informação extra de interesse para quem curte literatura.
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